Um casarão em situação de pré-ruína
 

Um casarão em situação de pré-ruína

Marcelo Barroso
ABANDONO - Casarão está abandonado e precisa de recuperação

25/02/2007 - Tribuna do Norte

Itaércio Porpino - Repórter

"Veio dar uma olhada, foi? Quer ver o museu? Pode vir por aqui”. Maria de Lourdes da Silva, 45 anos, deixou a panela com água fervente no fogo à lenha e arrodeou o casarão para nos recepcionar. Parecia um guia turístico disposto a mostrar cada detalhe da Casa Grande do Engenho Guaporé e contar a história do lugar, que remonta a época mais próspera da cultura da cana-de-açúcar em Ceará-Mirim — dos ricos senhores de engenho e do trabalho escravo.

A história que Maria contou foi a dela mesma. “Estou vivendo aqui faz quatro meses. Vim porque começou a chover e a molhar tudo na casa onde a gente estava. Fica bem aqui perto”, disse, enquanto andava para a varanda onde estava preparando a janta, uma panela de quarenta (espécie de canjica feita com água e massa de cuscuz) para comer com uns peixes voadores fritos. Com os pés descalços, os filhos de Maria a seguiram em fila pisoteando as azeitonas roxas esmagadas no chão.  

Sobre a história do casarão, Maria não soube falar muita coisa. “Sei que muito antigamente aqui moravam uns escravos. Agora é um museu, mas está vazio e abandonado. Nós já encontramos ele assim”, disse. Quando diz nós, a mulher se refere à sua família: o marido Antônio Barbosa Ferreira, 42, e os filhos Solange, 15, Adriana, 9, Luís, 6, Lucas, 5, e Iranete, de 2 anos.

Antônio preparava a terra para plantar milho, fava e feijão. O pensamento dele era se a reportagem, quando publicada no jornal, poderia prejudicá-los. Foi a primeira pergunta que fez. “A gente tá aqui porque não tem pra onde ir”, disse, justificando a preocupação. As outras duas casas que a família morou antes, pertinho do casarão, também foram encontradas ociosas. Maria, Antônio e os filhos passaram algum tempo nelas até que a chuva começou e os obrigou a encontrar outro abrigo.

Antonio conhece melhor que a mulher a história da Casa Grande. “Dizem que antigamente pertenceu ao Barão de Ceará-Mirim, senhor de engenho  poderoso”. Segundo historiadores, a antiga construção é  da metade do século 19. Na época áurea, o barão recebia em sua imponente casa a aristocracia do século 19 para festas pomposas. Hoje, o prédio está em situação de pré-ruina, com as janelas e portas quebradas, sem a parte elétrica e tomada por morcegos e cupins.

Antonio não se considera o atual senhor do lugar não. “Sou apenas o zelador. Isso aqui é da Fundação José Augusto”, disse, enquanto baforava fumaça de um brejeiro. Os poucos pertences e móveis da família dele estão ocupando dois dos muitos cômodos do casarão (que tem mais de 18 contando a parte de cima e o térreo). A comida é preparada na varanda, à lenha.

As crianças estão felizes com o espaço enorme que agora têm para brincar, mas os adultos não se iludem, pois sabem que o lugar não lhes pertence. “A gente não fica tranqüilo nessa situação. Não temos como alugar um canto, vivemos de biscate”, diz Antonio.

O carro de mão encostado num canto é o principal ganha-pão da família. Com ele, a mulher e o marido tiram uns trocados carregando até às casas as compras que as pessoas fazem no supermercado. Até o centro de Ceará-Mirim, são dois quilômetros de caminhada.

Governo pretende restaurar o casarão

A imponente Casa Grande do antigo Engenho Guaporé foi, durante muitos anos, um dos cenários da aristocracia canavieira no século 19. Por volta de 1860, o prédio chegou a abrigar o governador da Província, Vicente Inácio Pereira.

Com o passar do tempo, ficou sem uso. Quase em ruínas, foi restaurado em 1978 pela Fundação José Augusto para abrigar o Museu Nilo Pereira. O tombamento pelo Governo do Estado se deu em 1988.

O Centro de Documentação Cultural Eloy de Souza (Cedoc), ligado à Fundação José Augusto, é responsável pelo museu. O seu coordenador, Eduardo Alexandre, informou que há alguns anos foi necessário tirar os móveis que se encontravam dentro para recuperá-los.

O prédio — ele mesmo reconhece — está em estado de pré-ruina. Depois que o acervo foi retirado e trazido para Natal, o lugar ficou novamente sem uso e o Ministério Público passou a cobrar a reativação do museu. Segundo Eduardo Alexandre, o Governo do Estado, a pedido da FJA, abrirá licitação em breve para que o acervo e as instalações físicas da antiga casa grande sejam recuperados. O acervo é composto por móveis de época que encontravam-se no Palácio Potengi e foram doados pelo político Geraldo Melo. O prédio também pertence a ele e foi cedido à FJA.