piscicultura muda vida de assentados
 

Piscicultura muda vida de assentados em

Ceará-Mirim (RN)


O lugar é pequeno, mas vive cheio de gente. Talvez seja a rua mais freqüentada da cidade de Ceará-Mirim (RN). Ali, é assim mesmo: todos procuram o Banco do Brasil, uma das duas instituições bancárias da região. Mas uma novidade, no início de 2006, alterou um pouco essa lógica. Os funcionários do banco saíram da rotina, visitaram as comunidades mais pobres e idealizaram um projeto de geração de renda.

Francisco Feliz da Silva, de 42 anos, é uma das pessoas beneficiadas. Com recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o Banco do Brasil, parceiro do Fome Zero, levou adiante a proposta dos bancários de Ceará-Mirim: incentivar a criação de uma espécie de peixe – tilápia - por assentados da reforma agrária na região do Mato Grande (que abriga cerca de 35 Municípios e 150 mil habitantes).

No assentamento Aracati mora a família de Francisco Silva, ou Chiquinho, como é conhecido na região, é outras 112 famílias. Delas, 18 já estão inseridas na piscicultura. “Temos a terra desde 1993, mas não tínhamos renda mensal”, relembra ele. “Um salário mínimo para nós, que somos agricultores, significa muito, pois consumimos alimentos próprios e não pagamos aluguel e água. Para ter um padrão de vida como o nosso nos centros urbanos, precisaríamos de quatro salários”, arremata.

Divulgação
Pescaria
Primeira despesca em Aracati

A meta de alcançar R$ 350 (valor do salário mínimo), por mês, será superada em breve. Em fevereiro, um dos seis tanques divididos entre seis famílias rendeu a Chiquinho R$ 460. A estratégia é de que um viveiro seja comercializado mensalmente, fazendo com que a sonhada remuneração periódica faça parte do dia-a-dia dos agricultores familiares. Até 2006, o ganha-pão vinha exclusivamente do cultivo de mandioca, que demora 18 meses para ser colhida.

“Nesses tempos - para usar um ditado - fazíamos das tripas coração para manter as famílias por longos meses sem dinheiro algum”, lembra Chiquinho. Mas essa época passou, e ele gosta é de falar que a tilápia in natura é vendida a R$ 4,00 o quilo, e a filetada (só o filet) a R$ 15, o quilo.

Além dos 18 beneficiados de Aracati, outros três assentamentos possuem tanques de peixes: Rosário dos Canudos, Modelo 1 e Modelo 2. Ao todo, 168 famílias estão inseridas no projeto. Até junho, o número chegará a 504. “Estamos trabalhando com cuidado para que num mês a oferta não seja excessiva e no outro, falte tilápias”, explica o gerente da agência do Banco do Brasil em Ceará-Mirim, Nilberto Sandro Simplício. “Por isso, o aumento gradual de tanques para garantir vendas para supermercados e frigoríficos”.

O primeiro viveiro esvaziado foi justamente o compartilhado por Chiquinho. Nem foi preciso ir ao comércio para ganhar dinheiro com os três mil peixes. A comunidade ao redor dos assentamentos fechou a rua à procura das tilápias fresquinhas de Aracati. “Na Semana Santa, cinco tanques estarão disponíveis. Quero ver: vai chover gente aqui”, alegra-se o agricultor.

Divulgação
Pescadores segurando rede
Peixes são vendidos na hora da despesca

Alternativas de geração de renda


A criação de tilápias trouxe também outras perspectivas aos agricultores familiares. Uma iniciativa, já em desenvolvimento no assentamento Aracati, são os hortifrutigranjeiros. Para diversificar o cultivo – antes centrado no mandiocal – a água fertilizada dos tanques (renovada obrigatoriamente) está sendo utilizada na irrigação das hortas.

“Estamos plantando, nos quintais de nossas casas, alface, cebola, coentro, tomate”, exemplifica Chiquinho. Segundo o agricultor, até as próprias mandiocas começam a ter maior produtividade com a irrigação riquíssima em adubos (estercos, soja e milho). Cada tanque para piscicultura tem entre 25 e 75 metros, com 1,3 milhão de litros. Cerca de 10% da água renovada, mensalmente, vai para a plantação.

Há planos ainda de iniciar o cultivo de plantas oleaginosas, para redução de custos com ração, assim que a criação de tilápias se consolidar. Em vez de adicioná-los à gasolina, o girassol e o sorgo vão substituir a soja e o milho, importantes para alimentação dos peixes.

Piscicultura graças ao Pronaf
Todo o projeto de criação de tilápias da região do Mato Grande, no litoral Nordeste do Rio de Grande do Norte, está inserido na estratégia de Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS) do Banco do Brasil. No caso dos agricultores dali, o suporte do Pronaf foi fundamental.

Com o financiamento, foram construídos os tanques. Nilberto Sandro explica que o investimento para a construção dos 50 viveiros foi de R$ 1,1 milhão, sendo R$ 7 mil destinados a cada família. Anualmente, eles têm acesso ainda a outros R$ 3,5 mil para a manutenção e alimentação dos peixes.

Tais créditos – originários do Pronaf – fogem aos altos juros encontrados por aí, que chegam a 48% ao ano. Há carência de três anos e pagamentos divididos em 60 meses, a juros de 8,75%. “A esperança é de que os agricultores não precisem mais de empréstimos. O lucro com a venda das tilápias, no futuro, formará o capital de giro necessário a novos investimentos” lembra o gerente do Banco do Brasil.

                 Fonte:Vítor Corrêa, Equipe Fome Zero